Duplas identidades
Antigamente, nos identificávamos com as vítimas; hoje, nos fascinamos
com os malvados
Antigamente, nos romances, nos filmes,
nos identificávamos com as vítimas; hoje, nos fascinamos com os malvados. Não
torcemos mais pelos mocinhos — torcemos pelos bandidos. Quem nos fascina são os
filhos da p... Por quê?
Sempre houve psicopatas e seus crimes.
Só no século XX, duas guerras, holocausto, Hiroshima e Nagasaki, terrorismo,
tudo causado pela ausência de sentimento de culpa e pelo prazer do “inominável”.
Não estou sendo psicologista, mas a
psicopatia — para além das causas políticas e econômicas — é a base dos líderes
implacáveis e assassinos.
Hoje a psicopatia é mais
“descentralizada”. Não tem a massiva lógica “fordista” da era industrial.
Agora, no pós-tudo, o mal se dissemina, alastra-se em ilhas de comportamentos
já “aceitáveis”. Os psicopatas estão na moda. Vai desde os degoladores do
Estado Islâmico até o sujeito que mata para roubar um tênis ou ainda para os
ladrões da PTbras, os chamados psicopatas “revolucionários”. Agora, a
psicopatia é o “hype” do mal.
Dentro de casa, vivemos uma democracia
de massas com o gigantesco aluvião de corrupção. Os corruptos também possuem
“dupla identidade.” Falam em honra “ilibada“ e roubam bilhões. O que estamos vendo
é o desvelamento de uma farsa que nos assola há séculos, pelo menos desde Tomé
de Souza, que, ao fundar Salvador em 1549, roubou tanto que quase quebrou
Portugal.
Com a crise das utopias, com a
exposição brutal de um escândalo por dia, somos levados a endurecer o coração,
endurecer os olhos, em busca de um funcionamento que pareça aos outros
“normal”, “comercial” ou seremos descartados, tirados “de linha”, como carros
velhos.
A propaganda e o “espírito do tempo”
estimulam a “beleza” do narcisismo. Isso leva à vaidade e a um egoísmo
desabrido que evolui para a psicopatia. Somos hoje “freelancers” sem limites
morais e conquistamos uma liberdade para nada, para o exercício de um charme
ilusório, uma subjetividade transformada em produto de mercado.
Com a desmoralização da política e da
lei no mundo todo, vão se parindo legiões de psicopatas, disfarçados de
competentes ou vitoriosos. Já houve a época da histeria, do romantismo utópico
onipotente, da paranoia do entre-guerras. Hoje, temos o psicopata. E veio para
ficar. Eles encarnam a vida moderna.. Como acreditar em harmonia futura, em bom
senso, em arte, depois dessa revolução da boçalidade bruta?
O psicopata pós-moderno, light, não faz
picadinho de ninguém; no entanto, tem as mesmas molas que movem o esquartejador.
Ele não é nervoso ou inseguro. Parece muito sadio e simpático. Ele em geral tem
encanto e inteligência. E é muito difícil reconhecer o psicopata. Há uma frase
que os define assim: “Os ratos são mais felizes que as vítimas do psicopata. Ao
menos os ratos sabem ‘quem’ são os gatos.” Questionado ou flagrado, o psicopata
não se responsabiliza por suas ações, sempre se achando inocente ou “vítima” do
mundo, do qual tem de se vingar. Ele não sente remorso ou vergonha do que faz
(o que nos dá uma secreta inveja). Ele mente compulsivamente, muitas vezes
acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Não tem capacidade de
olhar para dentro de si mesmo. Não tem “insights”1 nem aprende com a
experiência, simplesmente porque acha que não tem nada a aprender.
E esse comportamento está deixando de
ser uma exceção. A velha luta pela ética, pela solidariedade já é uma batalha
vã. Muita bondade está ficando ingênua, babaca, ridícula.
Os resíduos de uma ética só existem
para discursos demagógicos e impotentes. Nada impede a predação dos dinheiros
públicos, porque o “público” não existe mais. Não há mais um limite para
escândalos e crimes. Só nos resta o fraco recurso dos direitos humanos.
Mas o que é o “humano” hoje? O “humano”
está virando um lugar-comum para uma “bondadezinha” submissa, politicamente
correta, uma tarefa inócua para ONGs.
Que nos acontecerá? Ou melhor, haverá
“acontecimentos” ainda, ou os fatos vão se dissolver no mar morto do futuro? As
coisas, que já mandam no mundo, vão acelerar sua tirania. Está sendo criada uma
“epi-natureza” onde o homem terá projetos que fugirão sempre de seu controle.
Será o tempo da deliciosa “reificação”, quando seremos talvez felizes como
“coisas”.
Surgiu a era da insolubilidade. Os
processos normais, com início, meio e fim, desmoronaram. Com a chegada da
desesperança, surge o fatalismo e a irresponsabilidade, pois o mundo é
considerado algo irremediável.
Haverá o fim da compaixão e as
populações miseráveis ou desnecessárias ao mercado serão eliminadas, sob os
protestos inaudíveis de humanistas fora de moda. Precisamos de uma forma nova
de “transcendência”, abolida pelo consenso tecnocientífico; uma nova liberdade
se tornou urgente, a liberdade de “não” ser moderno.
O poeta e pensador Paul Valéry
escreveu: “A desordem do mundo atual nos habitua intimamente a ela; nós a
vivemos, nós a respiramos, nós a criamos e ela acaba por ser uma verdadeira
necessidade nossa. Nós encontramos a desordem à nossa volta e dentro de nós
mesmos, nos jornais, nos dias e noites, em nossas atitudes, nos prazeres, até
em nosso saber.”
Somos máquinas desejantes que mudamos
de acordo com o tempo e a necessidade.
Antes, os psicopatas tocavam num
mistério que não queríamos conhecer.
Hoje, estamos vendo que essa antiga
doença vai ser uma “virtude” que está a caminho.
Teremos talvez de ficar como
eles para sobreviver. Os psicopatas são o nosso futuro. (Arnaldo Jabor - In.: http://oglobo.globo.com/cultura/arnaldo-jabor/)
QUESTÃO 1
“Processo é o nome que se dá à contínua mudança de
alguma coisa em direção definida. Processo social indica interação social,
movimento, mudança. Os processos sociais são as
diversas maneiras pelas quais os indivíduos e os grupos atuam uns sobre os
outros – isto é, de que forma eles se relacionam, estabelecendo relações
sociais”.
Arnaldo Jabor expressa
toda a sua preocupação com o processo social em curso na sociedade brasileira.
Identifique esse processo e justifique os motivos de sua preocupação.
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1 – insights - percepções

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